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Camila Miglhorini: CEO da rede Mr. Fit Fast Food Saudável, fundada há 14 anos em Paulínia

Mulheres dominam mercado de franquias e são cases de sucesso na região

Segundo estudo da ABF (Associação Brasileira de Franchising), a participação feminina nas redes franqueadoras aumentou de 46% para 57% na última década; em Sumaré, Paulínia e Campinas empresárias são exemplos de liderança no setor

Beth Soares | Tribuna Liberal

Quatorze anos atrás, a empresária Camila Miglhorini enxergou no mercado de alimentação saudável uma oportunidade de negócio. Nascia, em Paulínia, a primeira unidade da Mr. Fit Fast Food Saudável, a rede de franquias com mais de 880 unidades, que faz sucesso no Brasil, em Portugal e no Paraguai. 

Camila faz parte do time de mulheres que comanda, com competência, o mercado de franquias no Brasil, cuja participação nas redes franqueadoras aumentou de 46% para 57% na última década, segundo pesquisa da ABF (Associação Brasileira de Franchising). Na RMC (Região Metropolitana de Campinas), 5.636 empresas funcionam no sistema de franquia, movimentam R$ 7,8 bilhões e geram quase 50 mil empregos, informa a ABF.

Camila conta que montou seu negócio, em 2011, com apenas R$ 45 mil. Em um pequeno espaço começou a oferecer refeições, sanduíches e outras iguarias saudáveis, como estrogonofe de biomassa de banana verde e sucos funcionais. O sucesso foi tanto que, hoje, a Mr. Fit está presente em 26 estados brasileiros e no exterior.

Antes de virar empresária, Camila trabalhou como consultora de franquias e projetos para implantação desse tipo de negócio. “Atuei em várias áreas do setor de alimentação e saúde, e isso me deu uma visão ampla do que é necessário para empreender. Cada experiência foi um passo fundamental nessa jornada”, valoriza a CEO da Mr. Fit.

No mundo dos negócios, observa a empreendedora, os desafios vão desde a luta por reconhecimento, em um espaço predominantemente masculino, à necessidade de equilibrar responsabilidades familiares e profissionais. “Cada desafio, no entanto, também é uma oportunidade de crescimento. Acredito que a resiliência é a chave e que, juntas, podemos criar um ambiente mais inclusivo”, afirma.

Juntas, a franquia e a fábrica onde são produzidos os alimentos da Mr. Fit contam com 90 colaboradores. Desse número, 80% são mulheres, destaca Camila. A fábrica está localizada em Cosmópolis e abastece todas as unidades da rede.

Maíne Marinho Lucato deixou a carreira bem-sucedida na área de enfermagem, onde ocupou cargos importantes de gestão, para investir na franquia da cafeteria Mille Cuca, em Sumaré, inaugurada em dezembro do ano passado.

“Decidi investir em franquia porque era cliente da marca e amava a experiência que ela oferecia. A oportunidade de se tornar franqueada surgiu como uma chance de expandir minhas possibilidades, lidar com pessoas de uma maneira diferente e explorar novos desafios. Além disso, a franquia oferecia um modelo de negócios bem estabelecido, o que facilitou a transição para o empreendedorismo”, conta Maíne, que mantém o trabalho de docente na área da saúde.

Maíne Marinho Lucato (de blusa laranja): à frente da cafeteria Mille Cuca, inaugurada há três meses em Sumaré

A operação gastronômica tem os cookies artesanais como protagonista do cardápio, uma receita exclusiva criada pela chef Mille, fundadora da marca, em 2016. Além dos cookies, a cafeteria oferece uma variedade de sanduíches, cafés especiais, bebidas refrescantes e sobremesas.

Maíne lista uma série de desafios enfrentados pela população feminina no mundo dos negócios, dentre eles, a dificuldade para obter financiamentos, equilibrar as responsabilidades pessoais e familiares com o empreendedorismo, além do preconceito de gênero.

“Ainda existem preconceitos que atribuem papéis tradicionais às mulheres, dificultando nossa aceitação em posições de liderança e protagonismo”, comenta a empresária, que gera emprego para quatro mulheres.

AMOR À PRIMEIRA VISTA

Carolyne Albertini Gradim Gava é outra empresária que fortalece a presença feminina no setor de franquias. Ela e o marido, Rafael Gava, investiram em duas operações do Café Cultura - rede catarinense de cafeterias focada em cafés especiais e gastronomia – que funcionam no Parque D. Pedro Shopping, em Campinas, e no Shopping Piracicaba.

Com experiência na gerência de bancos, Carolyne atuava na produção de conteúdo e marketing da fábrica de brinquedos da família. Mas tudo mudou durante o período de férias em Canela (RS), quando o casal conheceu uma unidade da marca.

“Foi amor à primeira vista. Imaginamos que também poderíamos abrir uma, mas não sabíamos se se tratava de uma franquia. Tivemos a certeza quando, durante uma viagem ao Rio de Janeiro, nos deparamos com um Café Cultura no Shopping RioSul. Fizemos contato e descobrimos que eles estavam com planos de expansão para o estado de São Paulo. A partir daí, depois de amadurecermos a ideia por um tempo, e demos início às tratativas”, conta Carolyne.

Carolyne Gava: no comando das operações do Café Cultura em Campinas e Piracicaba

Ela relata que o maior desafio como mulher empreendedora é conciliar a vida pessoal com as atividades da empresa. “Não tenho filhos, mas tenho esposo e as responsabilidades de casa. Conciliar os interesses da empresa, as intermediações entre os diversos profissionais, a supervisão dos colaboradores, os compromissos pessoais e familiares é um grande desafio”, diz a empreendedora, que planeja abrir outras cinco unidades no interior de São Paulo até o final deste ano.

As mulheres são maioria no quadro de colaboradores das duas operações do Café Cultura. Juntas, as unidades de Campinas e Piracicaba empregam 17 pessoas. Desse número, 10 são mulheres, o que representa 58,8% do total de funcionários.

EMPRESÁRIA DÁ ADEUS AO SERVIÇO PÚBLICO PARA INVESTIR EM PIZZARIA EM PAULÍNIA

A empresária Janaína Dal Rovere Bonfim se prepara para abrir as portas da pizzaria da rede de franquias Bella Capri, em Paulínia. Ela e o marido, Felipe Bonfim, são sócios no empreendimento, mas é Janaína quem está à frente da operação. A inauguração está prevista para o próximo dia 28 de maio.

Janaina deixou a carreira no serviço público para realizar o sonho de investir no próprio negócio. “Queria buscar mais autonomia, independência financeira e liberdade para empreender”, afirma.

Janaína Dal Rovere Bonfim com o sócio Felipe: franqueada aposta na marca Bella Capri para conquistar independência financeira

Depois de muita pesquisa, ela decidiu pela franquia por considerar o modelo de negócio mais seguro para empreendedores iniciantes. “Com a franquia, pude contar com uma marca já consolidada no mercado, um plano de negócio estruturado e suporte para operação e gestão. Isso me deu mais confiança para começar, além de reduzir alguns riscos comuns a negócios independentes”, assinala.

“Outro fator que pesou na minha decisão foi a padronização dos processos e o treinamento oferecido, que facilitaram minha adaptação ao setor e me ajudaram a alcançar bons resultados rapidamente”, completa Janaína.

Nessa breve trajetória como empresária, ela diz que o principal desafio “é provar que a mulher tem a mesma competência e a capacidade empreendedora que os homens”. Mas vejo que, cada vez mais, estamos conquistando nosso espaço e mostrando que liderança e sucesso não têm gênero. Isso em especial no mundo das franquias, um setor que respeita a mulher e sua capacidade”, observa Janaina.

A Bella Capri é uma franquia de pizzas feitas à mão, com receitas exclusivas inspiradas na tradicional gastronomia italiana. A rede de pizzarias tem 56 operações nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná e Goiás.           

PARTICIPAÇÃO FEMININA NO SETOR DE FRANCHISING NO PAÍS CHEGA A 57%, APONTA PESQUISA DA ABF

Pesquisa da ABF (Associação Brasileira de Franchising), realizada em 2024, mostra que as mulheres dominam o mercado de franquias no Brasil. Segundo o estudo, a participação feminina nas redes franqueadoras passou de 46% para 57%, entre 2015 e 2024, o que representa um avanço de 11 pontos percentuais em quase uma década. O levantamento também indica crescimento da presença feminina nos cargos de liderança das empresas franqueadoras, de 19% para 29%.

Em relação às operações franqueadas, o estudo aponta que as mulheres também passaram a ser maioria, elevando a fatia de 48% para 51% no período pesquisado. Na liderança dessas operações franqueadas, identificou-se que três em cada 10 (32,2%) são mulheres.

De acordo com Cristina Franco, presidente do Conselho da ABF, primeira e única mulher a presidir Associação por dois mandatos (2013 a 2016), vários fatores explicam a ascensão da mulher no mercado de franquias.

Cristina Franco, presidente do Conselho da ABF: participação da mulher vai aumentar ainda mais no mercado de franquias

“Os principais fatores para isso estão diretamente ligados formando um ciclo virtuoso: o acesso mais democratizado a recursos tecnológicos tem impulsionado a criação de cursos, sobretudo na modalidade à distância. A partir daí, mais e mais mulheres têm conseguido incrementar sua formação profissional”, observa Cristina.

Segundo ela, outros pontos a serem levados em consideração são que as redes de apoio estão cada vez mais fortes, além de mudanças significativas nas dinâmicas familiares, com os pais participando mais das tarefas domésticas, o que inclui o cuidado com os filhos.

“Isso permite que as mulheres busquem mais oportunidades para empreender e trabalhar. Não podemos esquecer de um aumento no número de programas de mentoria destinados às mulheres; além de mais e mais empresas se engajarem em políticas de promoção da diversidade em seus quadros”, ressalta Cristina.

Apesar do avanço da participação feminina no setor de franchising, observa Cristina, ainda existem muitos desafios a serem enfrentados. “Por vezes notamos uma maior dificuldade de acesso a crédito e financiamentos, além da necessidade de provar a competência boa parte do tempo. Também não podemos esquecer da sobrecarga e do acúmulo de funções ainda comuns que dificultam conciliar vida profissional, pessoal e familiar”, enumera.

Para superar esses desafios, Cristina diz que é preciso união e troca de experiência entre as mulheres. “Para debelar isso tudo, acredito que as mulheres devam apoiar umas às outras, buscar o autoconhecimento e uma rede de apoio eficiente, exercitar a empatia e uma comunicação eficaz, além de buscar a constante troca de experiências com outras mulheres, líderes ou não”, recomenda.

POTENCIAL DE LIDERANÇA

Dados mais recentes da Pesquisa de Microfranquias realizada pela ABF corroboram com o crescimento da participação das mulheres na liderança dessas redes. Segundo o estudo, a participação das mulheres como principais executivas nas marcas de microfranquias puras (com modelos de negócios exclusivamente no valor de investimento inicial de até R$ 135 mil) aumentou de 12% para 18% entre maio de 2022 e maio de 2024.

Entre os segmentos com mais líderes mulheres estão Saúde, Beleza e Bem-estar (20% delas são a principal executiva ante 17% dos homens), Alimentação (16% ante 11%), Moda (7% ante 4%), Hotelaria e Turismo (5% ante 2%) e Entretenimento e Lazer (4% ante 2%).

“Os dados mostram que as mulheres avançam de forma geral em todos os aspectos no setor de franquias, inclusive nos cargos de liderança, imprimindo seu estilo de gestão, superando desafios e, possivelmente, preconceitos. Uma franchising mais diversa certamente fará com que o setor evolua ainda mais”, afirma Adriana Auriemo, vice-presidente da ABF.

E qual a perspectiva de futuro para as mulheres no setor de franquias? “Na franchising, as franqueadas já são maioria, com 51% e acredito que esta participação tem espaço para avançar ainda mais. O setor já percebeu o potencial feminino e está ciente de que mulheres na liderança são capazes de levar os negócios ainda mais longe”, responde Cristina.  

DE MULHER PRA MULHER

O Tribuna Liberal perguntou às empresárias que dicas elas dão a mulheres que pretendem iniciar um negócio por meio de franquia. Veja as respostas:

“Seja corajosa. O empreendedorismo requer coragem e disposição para enfrentar novos desafios. Faça um planejamento sólido e invista em um negócio que você ama. Trabalhe no desenvolvimento de habilidades de liderança, comunicação e resolução de problemas. Construa uma rede de apoio sólida. Isso ajudará a equilibrar a vida pessoal e profissional”.

Maíne Marinho Lucato, franqueada da Mille Cuca, em Sumaré

“Nunca subestime o poder da sua voz. Pesquise bem, conheça a fundo o mercado e, acima de tudo, acredite no seu potencial. Forme uma rede de apoio com outras mulheres empreendedoras e não tenha medo de buscar mentoria. O sucesso é construído com base em conhecimento e parcerias sólidas”.

Camila Miglhorini, CEO da Mr. Fit, em Paulínia

“Faça um planejamento detalhado e escolha uma franquia que realmente combine com você. Pesquise bastante sobre a marca, converse com outros franqueados e avalie o suporte oferecido pela franqueadora. Além disso, tenha consciência de que, mesmo sendo uma franquia, o sucesso do negócio dependerá do seu esforço, comprometimento e capacidade de gestão...”

Janaína Dal Rovere Bonfim, franqueada da Bella Capri, em Paulínia

“Dificuldades existem em qualquer coisa que decida pôr as mãos, seja família ou trabalho. A mulher tem que se perguntar: O que eu quero pra mim? Que legado eu quero deixar? E seguir em frente diante da resposta. Outra observação: apesar do sistema de franquias ser mais seguro do que iniciar um negócio do zero porque temos todo o suporte da marca, a pessoa tem que analisar se o seu perfil se encaixa porque é um sistema fechado, tem regras, não dá para inventar muito”.

Carolyne Albertini Gradim Gava, à frente das operações do Café Cultura, em Campinas e Paulínia


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