48,9% dos médicos sofrem pressão por tratamento sem comprovação científica

Subnotificação, fake news, falta de estrutura, insegurança e sintomas de Síndrome de Burnout: a dura vida do médico frente à pandemia

A APM (Associação Paulista de Medicina) realizou, entre 25 de junho e 02 de julho, a terceira edição de pesquisa sobre os problemas e carências dos médicos no enfrentamento à pandemia da Covid-19 e eventuais reflexos na assistência aos pacientes infectados. Entre os principais problemas detectados, está a “pandemia de fake news”, que leva pacientes e familiares a pressionarem por tratamentos sem comprovação científica – situação já vivenciada por 48,9% dos entrevistados.
“Notícias falsas, informações sensacionalistas ou sem comprovação técnica são inimigos que os médicos enfrentam simultaneamente à Covid-19. 69,2% dizem que interferem negativamente, pois levam algumas pessoas a minimizar (ou negar) o problema e, assim, a não observar as recomendações de isolamento social e higiene, ou a não procurar os serviços de Saúde”, acrescentou a entidade.
A amostragem contou com a participação de 1.984 profissionais de todo o país, respondendo espontaneamente a questionário estruturado on-line, via plataforma Survey Monkey. Destes, 60% trabalham em hospitais e/ou unidades de saúde que assistem a pacientes com Covid-19.
Dos que perfilam na linha de frente de combate à pandemia, 76,3% atendem, em média, por dia, até 20 ou mais pacientes com suspeita e/ou confirmação de Covid-19, sendo que a maioria entre eles, 53% têm sob sua responsabilidade até 5 enfermos.
Quatro em cada dez dos médicos pesquisados, mais precisamente 41,6%, já acompanharam pacientes que vieram a falecer com suspeita e/ou confirmação de Covid-19, marca bastante elevada.
Somente 28% se dizem plenamente capacitados para atender casos de Covid-19, em qualquer que seja a fase do tratamento. 72% admitem não ter conhecimentos aprofundados, a despeito de permanecerem na linha de frente por uma questão humanitária.
Por isso, talvez, 57,2% façam papel de autodidatas e busquem informações científicas diretamente na literatura médica. Aliás, quando o tema é acesso a fontes de capacitação, 46% se atualizam via canais do Ministério da Saúde, 44,3% com as associações médicas e 43,4% citam hospitais privados, em pergunta com múltipla escolha de respostas.
O crescente número de médicos e outros profissionais da Saúde que engrossam os casos e óbitos confirmados por Covid-19 gera a seguinte reação entre os médicos: 19% registram estar com mais receio de ser infectado agora do que no início da pandemia; 49,7% mantêm o mesmo nível de temor e 31,3% hoje acusam menos medo do que quando começou a pandemia.
Já ao serem indagados se eles e os demais profissionais de Saúde estão trabalhando com estrutura física/insumos adequados e segurança, 59% se queixam de que isso não ocorre. Pensando em futuro, apenas 5,7% consideram improvável o risco de faltar médicos para adequada atenção à saúde ao longo da evolução da pandemia de Covid-19. Os outros 94,3% creem nessa hipótese, em variados níveis.
Também há falta de diretrizes e de orientação ou programa para atendimento, conforme 25,1% dos questionados; e de máscaras N95, PFF2 ou equivalente – N99, N100 ou PFF3, para 24%. Os participantes da pesquisa comunicam ainda falta de aventais, óculos, luvas, álcool gel, entre muitos outros insumos. E o que é crítico: faltam leitos para pacientes que precisam de internação em UTI, segundo 13,4%.

CLIMA
No dia a dia do ambiente de trabalho, a percepção dos médicos é a de que diminutos 3,1% estão otimistas, enquanto 63% se mostram apreensivos. Sintomas comuns à Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional, são corriqueiros nos médicos que assistem a pessoas com Covid-19. Ansiedade (69,2%), estresse (63,5%) e exaustão física/emocional (49%), além de sensação de sobrecarga (50,2%), são os mais citados.
No quesito violência, 37% confirmam ter presenciado, ao longo da pandemia, episódios de agressões a médicos, outros profissionais ou colaboradores administrativos nas áreas de atendimento (consultórios, ambulatórios, áreas de trânsito dos hospitais, enfermarias, unidades de terapia intensiva). Figuram entre as mais comuns a truculência psicológica (21,5%) e verbais (20,7%). O cyberbullying também tem citação alta (11,5%).

Domingo, 12 de Julho de 2020

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