Bandidos abatem bovinos de pesquisa do IZ; há risco se carne for consumida

Instituto de Zootecnia confirma que carne dos quatro animais mortos criminosamente dentro de pasto sem qualquer higiene foi furtada

Após fortes imagens de restos de bovinos abatidos grosseiramente circularem em redes sociais ao longo do último final de semana, o IZ (Instituto de Zootecnia) de Nova Odessa, órgão da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, confirmou ontem que quatro animais de um projeto de pesquisa foram mortos na madrugada do último sábado (21/03), em um abate considerado clandestino e de risco para o consumo, já que todo o sangrento processo foi feito no próprio pasto.
Eles estavam em um pasto da Unidade Experimental de Forragicultura e Pastagem, situado entre a Avenida Brasil e a Rodovia Astrônomo Jean Nicolini. Apenas os miúdos e as cabeças dos animais foram deixados para trás, indicando a crueldade com que foram abatidos.
Os animais faziam parte de um projeto experimental que atendia a diversos estudos, dentre eles um de coleta de dados sobre a mitigação das emissões de GEEs (Gases de Efeito Estufa) em sistemas de pastagem. “Perdemos dados de pesquisa, que acarretarão em atraso importante nos estudos que seriam analisados durante diversos meses”, afirmou em nota a pesquisadora Cristina Maria Pacheco Barbosa, diretora substituta do IZ.
Ela enfatizou ainda que a Polícia Civil da cidade está sendo acionada para investigar o caso, mas, devido à quarentena estadual imposta pela epidemia do novo coronavírus, o registro de um boletim de ocorrência eletrônico ainda estava em andamento ontem.
Segundo Cristina, a carne dos bovinos mortos “apresenta risco ao consumo humano, porque foi um abate clandestino sem os devidos cuidados sanitários – sem inspeção sanitária e análise do produto”. “Em um frigorífico, há garantias, as carcaças são avaliadas por meio de diferentes mecanismos e por representantes de órgãos de inspeção”, ressaltou a diretora.
A diretora destacou ainda que a segurança do IZ já vem sendo reforçada e que novas câmeras de vigilância estão sendo instaladas em pontos estratégicos da Fazenda do Estado, sede do Instituto. “Estamos tomando todas as providências para manter as áreas monitoradas”, garantiu.

PESQUISA
Os animais faziam parte do experimento “Consórcio de gramíneas e leguminosas como estratégia de mitigação de metano e fixação biológica de nitrogênio (FBN) no solo”, financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo) e que visa identificar sistemas que resultem em menor impacto ambiental e com bem-estar animal, trabalhando com consórcio entre forrageiras, integração da pecuária com a lavoura, sistemas silvipastoris e sistemas intensificados de produção.
O projeto tem parceria de USP (Universidade de São Paulo), Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – São Carlos e Jaguariúna), Universidade da Califórnia Davis e IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Participam do projeto cerca de 30 cientistas das instituições públicas do Governo do Estado de São Paulo, Governo Federal e da universidade estrangeira – instituições que se uniram para desenvolver estudos na área de desenvolvimento da pecuária sustentável.

PREJUÍZOS
“Os animais mortos estavam em avaliação há oito meses e permaneceriam por mais 16 meses, até o fi nal do estudo. Os animais possuíam cápsulas no rúmen com hexafluoreto de enxofre (SF6), utilizado para medir o metano (CH4) eructado pelos animais”, enfatizou Luciana Gerdes.
A pesquisadora destacou que o abate criminoso dos animais “traz um prejuízo pontual no recurso investido, tanto pela Fapesp, quanto da própria instituição, pois os animais são patrimônio do Estado”. “Houve um prejuízo de cerca de R$ 30 mil investidos, somando a perda dos animais, assim como os dados de pesquisa que seriam analisados e cercas destruídas”, apontou.
Luciana lamentou ainda “toda esta barbárie, principalmente neste momento em que todos estão preocupados com a pandemia da Covid-19, e mesmo assim equipes reduzidas dão continuidade aos trabalhos de pesquisas agropecuárias, que não podem parar”. “Produtores esperam por resultados destes estudos, que contribuirão para manter a qualidade e segurança dos alimentos”, adiantou.
“O responsável por este furto venderá ou consumirá uma carne sem saber da procedência, além de destruir todo um tempo dedicado em avaliações de suma importância para pesquisa”, finalizou Luciana, indignada com o crime de sábado.

Quarta-feira, 25 de Março de 2020

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