Revendo Frankfurt

Despedimo-nos bem cedo porque queríamos ver a cidade de Paris; aluguei um táxi que nos levou à Torre Eiffel, nas igrejas Sacre Coeur e Notre Dame, ao bairro Montmadre, ao Museu do Louvre, ao Parque Luxembourg, às Tuilleries, às pontes do Rio Seine, ao Arco do Triunfo, às praças de La Concorde e da Bastille.
A dificuldade surgiu no momento do pagamento; a motorista do táxi queria um preço maior o que foi combinado no início; na discussão fiz pé firme, mudei a linguagem para o inglês e ameacei chamar a polícia; assim a mulher do taxi concordou somente a quantia do dinheiro combinado originalmente.
Depois desse dia cheio de eventos e episódios, finalmente embarcamos à noite no trem para Frankfurt (Alemanha), aonde meus pais nos esperavam na manhã seguinte. Lá na casa dos meus pais observei na janelas do prédio muita gente curiosa olhando; sem dúvida eles queriam ver a minha esposa brasileira. Naquela época os alemães ainda pensavam, quase todos, que mulheres brasileiras eram mulatas. Mesmo assim os meus pais e também as vizinhas nos receberam muito bem.
A nossa estadia em Frankfurt passou rapidamente e o nosso dinheiro diminuía cada vez mais; assim eu precisava ganhar alguns marcos trabalhando, porque não queria pedir dinheiro aos meus pais; por sorte conheci o arquiteto Schild que me colocou num serviço de supervisão das fundações da expansão do prédio da Deutsche Genossenschaftskasse.
Maria Helena ficou conhecendo bem a cidade de Frankfurt: a Feira internacional de Comestíveis e Bebidas, exposições, restaurantes, a famosa floresta da cidade e as corridas de cavalos no lindo prado da hípica.
Na passagem pelo centro turístico da estação de trem encontrei a minha velha amiga Marianne Sch., dos anos 1938 a 1949; ela também se casou e estava auxiliando o pai que era diretor daquela entidade. Em casa recebemos visita de Kurt Schuerer que chegou de Coburg e era parente de Albin Graupner, pai do meu sogro; chegou também a senhorita Bechtel, aquela que me arrumou o visto permanente para o Brasil três anos antes, e que ficou sabendo pelo consulado brasileiro da nossa chegada à Alemanha. O irmão do meu pai, tio Conrad, chegou por uns dias com minha prima Lenchen, casada e já esperando o 1º filho.
Meu amigo de infância Hans Schoenbein convidou-nos com o VW-Fusca dele para um passeio na floresta da montanha Taunus com um almoço no Restaurante do Feldberg, ponto mais alto em 800 m de altura, com uma bonita visão da cidade de Frankfurt. Infelizmente, depois de cinco meses, Maria Helena sentia muita saudade do Brasil e da família; cada semana ela ficava mais nervosa; a razão disso era também a língua alemã difícil para falar e entender, apesar do meu esforço traduzindo tudo, esmorecendo lentamente com o tempo, e da minha mãe ensinando a ela algumas palavras. Era compreensível que estávamos planejando voltar mais rápido possível para o Brasil, terra e pátria dela. Não tendo dinheiro suficiente para pagar a viagem de volta, apelei para meu sogro financiar a mesma, vendendo um pequeno terreno da minha esposa na cidade de Sumaré.
A volta se deu pelo navio Lavoisier no dia 8.11.55 zarpando do porto de Le Havre, que atingimos pontualmente de trem via Paris; graças a Deus tudo dava certo, porque os nervos da minha esposa já estavam bem gastos, visto que aceitando o convite de um amigo para passar o dia com a família dele numa casa de campo na montanha Taunus, Maria Helena não aguentou, ouvindo o dia todo as conversas altas em alemão. A dona da casa tinha o costume emitir sem parar risadas e gargalhadas, assim que minha esposa se refugiou no toilette, xingando palavras feias, ainda bem em português, as quais eu traduzia ser “elogios” à casa e à recepção tão agradável. Ela somente saiu do toilette na despedida e saída para casa dos meus pais; eu desculpei-a, explicando que uma forte dor de barriga impedia ela de sair antes. Sozinhos em casa e com os meus pais demos bastante risadas, contando esse episódio. No dia seguinte empacotamos toda bagagem – eram 13 malas grandes.
Na viagem de volta aportamos na cidade de Vigo (Espanha), na ilha da Madeira (Portugal), e na cidade de Santos, aonde nos desembarcamos.
Durante a viagem participamos do tradicional batismo da passagem do Equador com brincadeiras e festas, aonde Maria Helena recebeu o nome de “La Dorade” e eu o nome de “L’harengue”. Dias após quando passamos a ilha “Fernando de Noronha”, terra do Brasil, a orquestra de bordo entoou o Hino Nacional do Brasil e todos os brasileiros cantaram ela com lágrimas nos olhos, também a minha esposa.
Dias após de manhã o navio entrou na baía de Rio de Janeiro e todos nós podíamos admirar na primeira luz do dia a orla da praia com os arranha-céus da cidade, o imponente Pão de Açúcar, e um pouco mais longe o Corcovado com o Cristo Redentor de braços abertos abençoando a cidade. Alguns emigrantes comentaram na ignorância deles que a estátua de Cristo não parecia tão grande, visto assim à distância, o que irritou Maria Helena, que ferida no orgulho nacional começou a xingar estes estrangeiros de ingratos intrusos. Ainda bem na língua portuguesa, que eles não entenderam.
Na manhã do dia seguinte desembarcamos em Santos com uma recepção diferente que esperávamos. O quadro angustiante era de uma pré-revolução, porque era a época da tomada do poder pelo general Lott ; muitos soldados com metralhadoras de mão em punho estavam distribuídos em todas as dependências do porto; quando minha esposa nervosamente estava criticando em voz alta esta situação, estava eu transportando as nossas 13 malas para a alfândega, transpirando tanto com o calor de 37 graus de temperatura, que o meu suor corria solto, quando os funcionários e os soldados mandaram abrir a bagagem e taxando um valor extremamente alto, tudo visto também pelos parentes da Maria Helena, que eram: o pai, o irmão e várias tias e sobrinhas, esperando nos receber e abraçar após tantos meses de ausência.
O dinheiro para pagar a alfândega foi adiantado por uma tia que morava em Santos, porque eu tinha gasto meu último tostão na viagem. Meu sogro e Emilio alugaram dois táxis para acomodar todos nós com as malas e no fim do dia chegamos são e salvo na nossa pequena casa da chácara do meu sogro, que morava lá também.
Assim, no natal de 1955 a família toda estava reunida de novo.

Folclore Sumareense
Barril de chope
Orestes Belintani nasceu e se criou no Bairro do Cruzeiro de Santa Bárbara. Ficou conhecido na História de nossa cidade por ser um poeta e um dos donos do charmoso Bar Jardim, na Praça da República. Lá ele trabalhava durante toda a semana com a filha e a esposa.
Era uma pessoa culta e de fino trato. Seu bar era um dos mais frequentados da cidade, principalmente nos finais de semana, quando acontecia o tradicional “footing” da Praça da República – o local de encontro dos namorados, melhor dizendo, dos pretendentes a encontrar um namorado.
Teve uma época em que o Orestes trabalhava com chope. Tinha um carreteiro que trazia os barris de Campinas e abastecia os principais bares da cidade. O Bar Jardim era um deles.
Um de seus empregados, descendente de imigrantes italianos e também ex-morador do Bairro do Cruzeiro, cuidava do chope. Mantinha a chopeira e os barris bem arrumados e limpos. Só tinha um problema: ele não conseguia trocar o barril, quando o chope acabava. Não se sabe se não conseguia aprender ou tinha medo da vareta escapar na hora H. Então ele recorria ao Oreste para fazer esse serviço.
Quando acabava o chope de um barril ele dava um recado original para o dono do bar, numa linguagem original, mistura de italiano com caipira:
– Reste! O barrí berrô!
Traduzindo:
– Oreste! O chope do barril acabou (ou berrou)!
Alaerte Menuzzo

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