O ano de 1955

Viagem para a Alemanha

No ano de 1954, recebi uma semana de férias com passagem paga para São Paulo e Santos, aonde meu sogro morava com parentes após a morte da esposa Tita. Chegamos com a Panair no Rio com meio dia de atraso e pegamos o avião para São Paulo, pensando encontrar meu sogro lá em 3 horas.
Todavia aconteceu o seguinte: já com dez minutos no ar, Maria Helena mostrou-me respingos pretos de óleo na janela que aumentavam rapidamente e quando saiu fumaça do motor, avisamos a aeromoça que transmitiu isto imediatamente ao piloto. O mesmo parou o motor, virou lentamente o avião com um motor só e voltou para Rio, aonde conseguiu pousar sem problemas, naturalmente com todo sistema de emergência do aeroporto nos recebendo. Após apagado o fogo, todos nós saímos do avião para um outro que estava pronto e com o vôo marcado para São Paulo; todavia muitos passageiros, assustados, não queriam mais voar, e alugaram um micro-ônibus para a capital paulista. Nós seguimos de avião, pensando que um acidente não se repete no mesmo dia, também tínhamos o meu sogro esperando tempo demais no aeroporto.
Os dias em Santos eram bonitos e o tempo bom; visitamos com o sogro as praias de Guarujá, em especial a dos Tartarugas e em Santos a lgreja da Santa Teresinha, subindo ao morro de onde tínhamos uma linda vista da cidade, do porto e das praias. Depois, passando junto uma parte do dia em São Paulo, embarcamos de volta num vôo para Rio e Maceió; entretanto desta vez o tempo não garantiu uma viagem tranquila; ventos fortes com chuva jogavam o avião para cima e para baixo, parecia que estávamos num elevador de prédio, assim que o piloto avisou brincando que havia muitos buracos na estrada; duas vezes caíram também malas do bagageiro acima das nossas cabeças.
Os últimos meses em Maceió corriam sem grandes problemas e já pensei na volta a São Paulo para um futuro pródigo com novas obras; todavia não foi isso que o destino reservou para mim. Eu tinha trocado o nosso carro Ford 37 com um carro de luxo “Kaiser” ano 51, também tinha comprado 1.500 kg de táboas com várias espessuras e tamanhos em “Sucupira”, madeira duríssima, pesada e muito durável. Junto com a minha saída despachei a madeira e o carro num navio para Santos e não para Rio. Chegando no escritório da Christiani Nielsen no Rio, satisfeito ter concluído o serviço em Maceió com a entrega da obra ao cliente, eu resolvi por bem solicitar um aumento no meu salário, o que foi negado. Outrossim, senti um certo mal estar e críticas veladas sobre meu despacho para Santos, não para Rio, do meu carro e da madeira sem aviso para eles!
Tudo isto me chocou. Estava orgulhoso do que fiz em Maceió, onde trabalhei num ambiente perigoso, sem civilização e vencendo todos os obstáculos. Assim, acertei minhas contas e pedi demissão, coisa única numa firma como a Christiani Nielsen.
Voltando para Sumaré junto à família da minha mulher, consegui fácil colocação como engenheiro de manutenção na fábrica da 3M; afinal, o diretor ainda se lembrou dos meus serviços na implantação em 1953. Também foi buscar em Santos o meu lindo carro e três caixotes grandes de madeira; outrossim, chegou junto via maritima um menino pobre de 16 anos, o qual conheci em Maceió e com autorização dos pais ele ficou conosco alguns anos, morando no rancho de campo do meu sogro e ajudando em casa, bem como no plantio das primeiras árvores frutíferas na nossa chácara ao lado. Até início de 1955 trabalhei nos projetos de expansão da fábrica e supervisionei obras pequenas da manutenção; também tentei com dois sócios montar na parte superior da chácara uma fabricação de elementos premoldados em concreto, o que não deu certo porque os sócios não tinham mais dinheiro para investir. Perdi um terreno de 4.500 m² colocado por mim na sociedade, que somente em 1958 consegui o comprar de volta.
Em março de 1955 estava tudo certo para eu poder apresentar minha esposa aos meus pais na Alemanha. Na fábrica não tinha mais muito serviço na supervisão ou no planejamento, assim me desliguei e iniciei o meu planejamento à nossa primeira viagem para a Europa. Após conseguir vender o nosso carro para o dono de um táxi, tudo estava pronto para a nossa partida.

DE VOLTA PARA A ALEMANHA
O navio de 10.000 t “Luis Lumiere” zarpou do porto de Santos na tarde de 05.07.1955 e na manhã seguinte aportamos no Rio de Janeiro. Os passageiros podiam sair do navio e assim visitamos o Corcovado com a estátua enorme do Cristo Redentor de onde podíamos apreciar a vista de toda linda cidade, do Pão de Açúcar e de toda orla das praias.
À noite, de volta ao navio, conhecemos no bar um casal francês que voltava para sua casa em Paris, bem como um casal de artistas, Carlos de La Motte e sua assistente Helena se dirigindo para Lisbôa (Portugal). A viagem passou pela ilha Gran Canaria, por Lisboa, continuando via Vigo (Espanha) e finalmente para Le Havre, na França. Em todas as paradas podíamos visitar as respectivas cidades, sempre em companhia do casal amigo francês; ele era engenheiro lotado na refinaria em construção da Petrobrás em Cubatão, na Baixada Santista. Eram horas bem alegres cheias de bricadeiras e conversações em todo percurso.
Chegando em Paris aceitamos o convite para passar o dia e a noite na casa deles. Não era muito confortável, pois tudo era pequeno e não muito limpo; a comida era uma lebre assada, carne muito adoçicada e o que Maria Helena não gostava; dormimos num sofá-cama e na manhã todo mundo se lavava na pia da cozinha. A privada para fazer as necessidades se localizava no outro lado de um pátio; abrindo a porta tinha um buraco no chão de cimento e acima da cabeça era um chuveiro de água fria, acionado por uma corrente; tudo era muito precário. o que causou muita surpresa em nós.

Pausa para o almoço

Geraldo Costa Camargo foi vereador na Câmara Municipal de Sumaré em três legislaturas.
Morava em Hortolândia e representava o então distrito em nosso Legislativo. Era um vereador atuante, não na Tribuna, mas nas ações. Procurava atender a todos as reivindicações dos moradores daquele lugar, sempre com muita determinação. Três vitórias em eleições mostram bem o quanto era estimado pela população do distrito.
Relacionava-se bem com Prefeitos de sua época (João Smânio Franceschini, Paulo Célio Moranza e José De Nadai), que atendiam regularmente seus pedidos. Por esse motivo era frequentador regular das solenidades que aconteciam frequentemente no município, por iniciativa dos prefeitos – comemorações, inaugurações e coisas parecidas. Mas também era assíduo frequentador de congressos e solenidades envolvendo o Legislativo.
Num desses eventos ligados ao Legislativo teve que frequentar uma cansativa palestra, que começou logo pela manhã. O palestrante falava, falava e… cansava. De útil, sobrava pouca coisa para ser aprendida ou compreendida.
Depois de duas ou três horas, já beirando a hora do almoço, o palestrante falou:
– Vamos fazer agora um pequeno intervalo para o almoço!
Geraldo, que não tinha papas na língua, mas que tinha na franqueza uma de suas principais qualidades, respondeu em alto e bom som, para o palestrante e os colegas do auditório:
– Foi a melhor coisa que você falou até agora!
Alaerte Menuzzo

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