Família de idoso com fêmur quebrado reclama de internação em UTI de Covid

Aposentado de 82 anos deu entrada no Hospital Estadual de Sumaré para cirurgia no fêmur e foi parar na UTI para suspeitos de coronavírus

Familiares de M.F.S, de 82 anos, morador de Hortolândia, procuraram a reportagem do Jornal Tribuna Liberal reclamando do fato de o aposentado ter dado entrada no HES (Hospital Estadual de Sumaré Dr. Leandro Franceschini) no último dia 16 de maio com uma fratura de fêmur e ter sido transferido, dois dias depois, com suspeita de contaminação pelo novo coronavírus, para uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva) específica, sendo isolado do contato com a família.
A instituição pública de Saúde confirmou ontem a transferência, explicou que ela foi uma medida necessária em função de novos sintomas apresentados durante a internação e informou que os resultados dos exames acabaram sendo negativos para o novo coronavírus. O HES também lamentou a postura da família (veja abaixo). O idoso continuava internado até ontem à tarde, segundo a família, em estado grave.
Parentes do idoso reclamaram da falta de informação quanto às medidas tomadas pela equipe do HES. No dia 19, o genro do paciente, Evandro Ripamonti, autor da reclamação, chegou a chamar a Polícia Militar ao HES para registrar uma ocorrência, anotada como “desinteligência”. Ripamonti também fez diversas postagens em redes sociais “denunciando” o ocorrido, o que desagradou a instituição de Saúde.

CRONOLOGIA
“Meu sogro, na sexta-feira passada, dia 16, quebrou a perna lá em Hortolândia. Ele estava perfeitamente saudável, só quebrou a perna. Duas motos do Samu vieram na nossa casa, analisou, viu que ele não tinha coronavírus, e chamou uma ambulância para buscar. Levaram para o Hospital Mario Covas e fizeram uma avaliação total pra ver se ele tinha algum sintoma do coronavírus, e nada, não tinha nada. Então encaminharam ele para a Ortopedia aqui do Hospital Estadual”, conta Ripamonti.
Na Ortopedia do HES, segundo ele, toda a equipe estaria trabalhando sem máscaras. “Durante dois dias, doparam ele com morfina. O fêmur quebrado e nada de cirurgia. Estávamos aguardando uma tomografia no dia 18 para poder operar. Sem mais nem menos, uma noite antes, deu 1h da manhã, entraram no quarto e falaram que a respiração estava muito lenta, que iam levar ele pra UTI. Ficamos preocupados, mas ao mesmo tempo mais tranquilos, porque ele seria monitorado 24h e não tem nenhum problema a não ser a perna quebrada”, continuou o genro.
Os problemas começaram no dia seguinte, segundo ele: ao chegar no HES, Ripamonti não teria sido autorizado a visita o sogro, o que lhe causou estranheza. “Ai começou a minha luta. Sem informação nenhuma até ontem. Chamei a polícia, fizemos um boletim de ocorrência, mas a Ouvidoria do Hospital, a Diretoria, a Assistência Social – ninguém deu informação pra gente nem com a polícia”, acrescentou.
“Porque uma pessoa que entrou no Hospital com uma perna quebrada é encaminhada, sem fazer exame (porque eu estava de acompanhante e ninguém fez exame dele), sem sintoma nenhum, é internado na UTI da Covid-19 e agora está em isolamento total? Eles me deram um laudo dizendo que ele tinha suspeita de Covid-19, e que foi encaminhado pra UTI porque tem suspeita de Covid-19. Depois de 4 horas dentro do Hospital, conseguimos ver que meu sogro estava vivo pelo visor”, contou Ripamonti.
Ele estava em casa, com isolamento de três meses, sem nenhum sintoma de Covid-19. Não foi feito exame, porque ninguém faz exame de Covid-19 em um dia e tem resultado. E foi pra UTI de Covid-19 sendo que ele podia ficar na UTI normal ou no quarto do 5º andar, em isolamento, sem máscara. Vou procurar alguns órgãos pra ter informações, porque eles não me falam quem foi o médico que passou meu sogro para a UTI, não me falam o porquê. Falaram que fizeram uma tomografia no meu sogro e deu pulmão contaminado, o que é mentira, porque estávamos lá o tempo inteiro de acompanhante sem máscara, a médica entrava o tempo inteiro sem máscara na sala da Ortopedia sem máscara e não foi feito esse exame”, completou o genro do paciente.

Outro lado: Hospital confirma suspeita de Covid e justifica UTI

Em 19 de maio, um relatório médico disponibilizado à família, assinado por um médico do Hospital, já detalhava o tratamento realizado. “Paciente encaminhado do Hospital Mario Covas de Hortolândia no dia 16/05/2020 com fratura de fêmur esquerdo. Informado antecedentes pessoais na data da internação de cardiopatia, pneumopatia, hipertensão e diabetes. Paciente evoluiu com piora do padrão respiratório. Realizamos tomografia de tórax com lesão padrão em vidro fosco. Devido à suspeita de Covid-19, foi encaminhado no dia 18/05/2020 à UTI específica. Realizado coleta de SWAB para teste de Covid-19 (RT-PCR)”, informa o laudo.
Em nota emitida ontem, a assessoria do HES informou que, apesar da fratura de fêmur, o paciente possui “várias comorbidades graves”, e garantiu que a equipe médica multidisciplinar “efetuou vários exames para avaliação e compensação clínica para a cirurgia programada para 18/05”.
“Na madrugada de segunda-feira (18/05), o paciente entrou em insuficiência respiratória e fez tomografia de tórax para aprofundar a avaliação, que apresentou uma lesão de padrão de vidro fosco. A opção da equipe foi pela transferência para a UTI Covid, para garantir a segurança do paciente com todos os cuidados intensivos”, assegurou o Hospital.
Além disso, na última terça-feira, foi coletado material para os exames de Covid-19, que foram realizados nos HC (Hospital das Clínicas) da Unicamp e deram resultado negativo. “Hoje (ontem), o paciente seria transferido para a UTI Adulto (não Covid) do Hospital, mas não apresenta condições clinicas para transferência”, explicou o HES.

LAMENTA
Por fim, o Hospital Estadual reafirmou sua posição de “pleno apoio à família nos boletins médicos, bem como às equipes que conduzem o acompanhamento do paciente”. “O que não concordamos é com a abordagem de vídeos em redes sociais que desqualificam todo o esforço de uma instituição, que arduamente está atuando dentro dos melhores padrões de assistência na mais absoluta transparência e seriedade. Notícias falsas, com informações desprovidas de contexto, prejudicam os esforços do hospital em seu trabalho de assistência de qualidade e de enfrentamento da pandemia, o que afronta o senso de coletividade e presta um desserviço à sociedade”, completou a nota oficial.

Quinta-feira, 21 de Maio de 2020

Veja Também

Rompimentos de redes e adutora afetam abastecimento em 3 regiões de Sumaré

Apenas na quarta-feira, foram dois incidentes em tubulações de água tratada, afetando 5 bairros de ...