Luva biônica desenvolvida por designer de Sumaré faz maestro voltar a tocar

Equipamento construído pelo designer Ubiratan Bizarro Costa com base em imagens permitiu a João Carlos Martins voltar ao piano

Deu até no The New York Times na última semana: graças a uma luva biônica desenvolvida pelo designer industrial e professor de desenho sumareense Ubiratan Bizarro Costa, 55 anos, o mundialmente famoso maestro brasileiro João Carlos Martins, 79 anos, está voltando a tocar piano. O projeto ainda está em desenvolvimento, e Costa, da Escola de Desenho Traço Bizarro Art & Design, mal tem tempo de atender a todos os pedidos de entrevista que recebe, pois trabalha diariamente em uma nova versão de seu invento.
E foi em Sumaré mesmo que houve a “apresentação” da luva ao maestro. Em janeiro de 2019, Martins havia se “despedido” definitivamente do piano com uma apresentação no “Fantástico”, da TV Globo. Há algum tempo, ele tocava apenas com os polegares, pois o movimento de suas mãos foi sendo severamente afetado ao longo dos anos por uma série de incidentes e limitações físicas.
Em julho, no entanto, pouco antes da apresentação gratuita da Orquestra Bachiana Filarmônica Sesi-SP regida por Martins em Sumaré – e que atraiu milhares de pessoas à Praça das Bandeiras –, Costa procurou o maestro em seu camarim para lhe apresentar sua ideia: uma luva adaptada que lhe permitiria esticar e, novamente, movimentar quase todos os dedos de ambas as mãos, com exceção do dedo médio da mão direita. A luva havia sido projetada em 3D e construída com base apenas em fotos e imagens do maestro que Costa encontrou na internet.
“Foram 5 minutos, muito rápido, antes da apresentação. Ele achou interessante, mas não pudemos conversar muito. Ele tentou usar, agradeceu, e foi embora. Depois de umas duas semanas ele me ligou e começamos a conversar, e fui desenvolvendo outros modelos”, conta Costa.
Martins realmente acreditou na proposta do designer sumareense e passou a testar o primeiro protótipo das luvas. Gostou. Tocou. Chegou a quebrar essa primeira versão, e então convidou Costa para ir a seu apartamento, nos Jardins, em São Paulo, para, desta vez, tomar as medidas corretas das suas mãos e fabricar uma segunda versão, ainda melhor. Cada versão tem custo estimado em torno de R$ 500,00.
No início do ano, Martins veio a Sumaré, à casa de Costa, para iniciar os testes da mais nova versão do equipamento, aprimorada e personalizada. “Estamos praticamente da quarta para a quinta ‘geração’. Foi a partir do terceiro protótipo que começou a dar certo. Foi no começo de novembro, quando consegui passar para o terceiro modelo, que começou a dar realmente certo e a coisa embalou”, diz o designer.

AS LUVAS
As luvas são confeccionadas com materiais compostos, com peças projetadas e impressas em impressora 3D, com hastes em aço-carbono e um acabamento que parece fibra de carbono. Uma placa é afixada nas “costas” das luvas, e as hastes de metal funcionam como molas, permitindo que o maestro volte finalmente a esticar os dedos com força o sufi ciente para acionar as teclas do piano.
Martins tem treinado diariamente com as luvas, “reaprendendo” a tocar e executando movimentos e acordes cada vez mais complexos. Para colocar em perspectiva o feito da dupla: desde 1998 Martins não tocava o piano com todos os dedos da mão direita, segundo a entrevista dele próprio à TV Folha que repercutiu mundialmente ao longo dos últimos dias. “Ele está reaprendendo a tocar. Em dezembro, ele publicou um vídeo no Instagram tocando com as luvas, e ai começou todo o burburinho”, acrescenta o sumareense.
E foi ai que o designer percebeu o alcance de seu feito: “Meu Deus, agora está me assustando: o maestro deu entrevista falando das luvas que criei para ele, e já saiu no Washington Post e acaba de sair no The New York Times”, postou um incrédulo Costa em sua conta pessoal no Facebook, no último dia 22.
De fato: “Lenda brasileira do piano toca novamente graças a luvas ‘mágicas’”, publicou em seu site (em Inglês) o The New York Times no dia 22 de janeiro. A mesma reportagem saiu um dia antes no Washington Post, ambas traduzidas do texto original da Folha de São Paulo do dia 19.
Segundo Costa, a matéria já circulou em mais de 200 países. “Está tendo muita repercussão, mundialmente. Já dei umas cinco ou seis entrevistas, e segunda-feira (27/01) vamos no programa da Fátima Bernardes de manhã, e na hora do almoço vamos aparecer no Jornal da EPTV”, conta o sumareense, que mantém um escritório de design de produtos há 30 anos e a escola Traço Bizarro, há 23 anos.
Mas o maior desejo de Ubiratan Bizarro Costa é ajudar outras pessoas com sua ideia. “Muitas pessoas já entraram em contato querendo as luvas, mas não é em todo caso – alguns vão dar certo, outros não. Mas existe sim a possibilidade de atendermos alguns outros casos específicos de distonia focal, que vejo que se encaixam na proposta. Tem muita gente que sofre e não são músicos, pessoas que trabalham muito com as mãos, incluindo músicos. Acho que podemos ajudar outras pessoas”, finaliza o designer industrial.

Domingo, 26 de Janeiro de 2020

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