Lembranças do Dom Jayme

Alaerte Menuzzo foi professor, assistente de Direção e diretor substituto do Colégio Estadual Dom Jayme de Barros Câmara, que comemora 60 anos de existência neste mês de agosto. Há dez anos, escreveu este texto, em comemoração aos 50 anos de vida da escola, publicado nas páginas do Tribuna Liberal do dia 19 de agosto de 2008. É um relato de uma pessoa que viveu intensamente o dia a dia dessa escola. Julgamos oportuna sua republicação, porque mostra muita coisa desse tradicional estabelecimento, desde sua origem, no então Ginásio Estadual de Sumaré, a primeira escola de Nível Médio do município, até o seu Jubileu de Ouro.

15 de agosto de 2008. A Escola Estadual Dom Jayme de Barros Câmara comemora seus 50 anos de criação. Com uma passagem de aproximadamente 10 anos naquele estabelecimento, sinto-me na obrigação de narrar minha experiência, minhas impressões daquele que é a segunda instituição de ensino de Sumaré, em idade (a primeira é a Escola André Rodrigues de Alckmin).
Lembro-me do padre José Giordano, que lutou pela sua criação. Foi no Ginásio Estadual de Sumaré. Como aluno, não consegui frequentar suas classes, porque a escola começou com a primeira série ginasial apenas. Quem estivesse freqüentando séries superiores, estaria fora. Foi meu caso, e de toda a geração, que freqüentava escolas em Campinas, viajando de trem.
Os primeiros anos do Ginásio foram de muita dificuldade. Lembro-me que muitos mestres eram de Sumaré, porque havia dificuldade em preencher o quadro com professores de outras cidades. A primeira formatura aconteceria 4 anos mais tarde, em formatura no salão do Clube Recreativo Sumaré, ali pertinho, na Rua Antonio Jorge Chebabi.
Mais tarde o Ginásio subiu um degrau, transformando-se no Colégio Estadual de Sumaré. Nessa altura, quem dirigia a escola era a Professora Maiba Apparecida Maluf. Funcionava ali, na Praça da República. O novo prédio já estava sendo construído, na Avenida José Mancini.
Lembro-me da disputa política para se colocar um nome na escola, por causa do novo prédio. Eram os chamados “anos de chumbo” do Brasil. Em plena ditadura, os detentores da política municipal digladiavam-se nos palácios estaduais em conseguir um nome do seu agrado. De um lado, os Moranza. De outro, os Franceschini. No meio deles, a família Maluf. Foi uma sucessão de denominações e cancelamentos, que culminou com uma decisão salomônica por parte das autoridades estaduais. O nome Maluf foi para uma escola do Matão (Wadih Jorge Maluf). Os Franceschini foram lembrados para ser a denominação do 2º Grupo Escolar, dirigido pelo competente diretor João Paulo de Toledo (a escola era popularmente conhecida como “Escola do João Paulo”). Ficou chamada de João Franceschini, avô do prefeito. Para o Colégio Estadual, foi escolhida uma denominação neutra, que agradou as partes: Dom Jayme de Barros Câmara.
O prédio tinha (e tem) 20 salas de aula. Hoje, é ocupado pela metade. A outra é da Diretoria de Ensino. Quando comecei a trabalhar no Colégio, a diretora era a competente professora Flora Ferreira Gomes, que tinha ocupado o cargo de direção na Escola Ângelo Campo Dall’Orto, de Nova Veneza. Fui trabalhar sob as ordens da dona Flora como professor e assistente de Direção, do horário noturno. Cheguei a substituí-la na Direção por quase um ano.
Os 10 anos de trabalho foram muito envolventes
Tinha um secretário de alto gabarito: Ivo Alves da Silveira. Um grande quadro de professores. Um grande corpo docente. Eram professores de Nova Odessa, Americana, Campinas, Santa Bárbara d’Oeste. Álvaro Correa era desta última cidade. Professor de Educação Física, virou prefeito daquele município. Ele comandou a equipe de basquete local (quase todos alunos do Dom Jayme), que representou a cidade nos Jogos Regionais de Sumaré.
Tinha 3 períodos: manhã, tarde e noite. Chegou a ter quase 60 classes. Uma delas, curiosamente, era de alunos do Jardim Rosolém, de Hortolândia, porque naquele bairro não tinha escola. O Colegial tinha um altíssimo nível. Hoje, seus ex-alunos ocupam posições de relevância social (engenheiros, médicos, políticos, empresários, diretores de multinacionais).
A Festa Junina do Dom Jayme era a maior e a mais frequentada da região. A cidade literalmente parava quando acontecia. Infelizmente, um assassinato estúpido de um casal de jovens (latrocínio), numa dessas festas, acabou com a tradição. Seus autores quase foram linchados pela população revoltada.
O curso noturno do Dom Jayme era frequentado por adultos. Muitos de seus alunos trabalhavam em empresas multinacionais do município, e conseguiram seu diploma tardio de colegial, aproveitando a oportunidade de estudar naquela que era considerada a maior escola do município. Quase todo ano acontecia, à noite, uma partida de futebol de salão entre professores e alunos. A quadra ficava repleta de torcedores.
O antigo Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização), comandado pelo competente industrial Fuad Assef Maluf, desenvolvia atividades no Dom Jayme. O mesmo acontecia com turmas extras do Senai (pedreiro, por exemplo).
O Dom Jayme tinha um dentista em tempo integral. Era o doutor Wilson Ambrósio Biondi, que participava também de todas as atividades da escola. Fazia parte da diretoria da Associação de Pais e Mestres.
Ah! Os pais! Eles participavam de todas as atividades extra-escolares. Festas, reuniões, campanhas. Havia campanha para tudo: biblioteca, pintura e reforma da escola. Havia excursões (eu participei de várias, com muito significado, como, por exemplo, à Fundação Padre Anchieta, ou ao Museu do Ipiranga, em São Paulo).
Num tempo em que os recursos financeiros eram limitados, o Dom Jayme tinha laboratório, sala de História, projetor de slides, episcópio, biblioteca, serviço de som. Havia música ambiente nos intervalos de aula. Quase tudo adquirido com recursos próprios. Tinha uma grande fanfarra, comandada por um professor de Química! Era o professor (e hoje médico) doutor Walter Eberlin.
No fi m do meu tempo escolar, encontrava-me num dilema profissional. A profissão estava sendo desvalorizada pelo Governo Estadual. Os aumentos eram ínfimos. A cada ano, ganhava-se menos, num período em que a inflação corroia parte dos salários. Aí surgiu uma oportunidade profissional, que não perdi: um concurso do Banco do Brasil. Lembro-me que no concurso passaram 3 pessoas do Dom Jayme: eu e duas alunas (num total de 10 aprovados). No concurso seguinte, outro aluno veio juntar-se a nós. Éramos quatro profissionais do Dom Jayme, todos no Banco do Brasil, que era considerado “top” dos concursos.

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